Os ventos eram tão fortes que ofuscavam a visão. Tão potentes que pareciam estar imbuídos de uma força destruidora. Como aqueles seres terríveis à sua frente. Todos estavam girando suas armas velozmente ao seu redor. Era até bonito de ver, se não fosse ele o alvo. Enormes. Ameaçadores. Ficou imóvel, a observá-los…
Quando partiu da sua pequena cidade, a muitas léguas dali, só carregou consigo as expectativas e duas mudas de roupa, além do pão dormido no embornal. Cantil não tinha, muito menos espada. Havia de conseguir uma no caminho, como tudo mais.
Ninguém lhe disse diretamente que era loucura ou que desistisse. Mas os olhares, escondendo intenções, reprovações, invejas, eram um sinal camuflado de que esperavam o seu fracasso. “Os gigantes do caminho o destruirão na primeira encruzilhada, como fizeram com todos os outros.”
Assim, passo a passo, iniciou sua trajetória e acreditava, sem fagulha de dúvida, realizar os seus desejos. Se esses não eram tão nobres, também não fariam mal a ninguém. Mas estavam acima da vaidade e abaixo da necessidade que diziam nortear o nosso caráter. Sem preocupações sobre o pensamento dos inquisidores, comeu muita poeira errando de cidade em cidade. Alguns tentaram acompanhá-lo e ele demorou a perceber que eram apenas desvios. Preferiu seguir adiante sozinho. A conversa dos companheiros podia ser rica e alegre, e isso bastava-lhes. Não para ele.
Olhava para o decorrido constantemente e sempre, definitivamente, concluía ter escolhido a melhor opção. Mesmo que a única peça de roupa estivesse coberta pela sujeira, impedindo os viajantes de perceberem sua imponência, seu valor. Pelo menos suas pernas estavam rígidas e sua mente havia sido purificada pelas reflexões forçadas, na noite escura e no dia escaldante. O caminho tinha sido muito bom, segundo a sua resignação, mas era chegado o momento das escolhas.
Ali, cercado por aqueles gigantes descomunais, entendia que não tinha mais volta. Não havia escolhas a fazer. O seu andar apagou o recuo que podia ser feito há muito tempo. A pouca visibilidade causada pelos ventos intensos tornara-se momentaneamente sua inimiga. E o medo se apossou do seu ser. O movimento daquelas criaturas o deixava zonzo. De um lado e para o outro, ele se via envolto pela iminente destruição. Todos os caminhos estavam fortemente guardados. Não lhe dariam a trégua. E nem a fuga. No seu cambaleio, começou a brandir a sua espada. Acertava os vultos. Os movimentos. Era atingido e jogado ao chão. Tonto, se levantava e tornava a investir contra os seus algozes. Agora era tudo ou nada. Iria continuar o caminho. Saciar os seus desejos, mesmo que eles fossem egoístas, tolos. Nada iria impedi-lo. Nem um exército de gigantes.
Estropiado, sentiu o vento se acalmar aos poucos. Os inimigos pareciam recuar. Lentamente. A visão mais nítida buscava por eles. Seus braços não giravam com tanta desenvoltura e aos poucos foram ficando imóveis. A ventania cessara e o terreno ficou claro. Somente uma brisa. Olhou toda a encruzilhada e não os viu mais. Haviam todos fugido. Todos. Podia seguir adiante, atrás dos seus maravilhosos e imorais desejos. Sem culpa, porque merecia deliciar-se com eles. E também porque à sua frente só restavam moinhos. Apenas moinhos.
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