Categoria: Pedaços do Caminho

Pedaços do Caminho é um livro em construção.

Toda sexta-feira, às 18h, um novo conto é acrescentado —
sempre no mesmo dia, no mesmo horário.

As histórias não precisam ser lidas em ordem.
Você pode chegar agora
ou caminhar desde o início.

  • O jeito próprio de amar

    Na primeira vez que conversaram, ela quis saber de sua vida, gostava de manter um fingido conhecimento dos que levava para a cama. Nas primeiras vezes que se encontraram, ele falou apenas amenidades; tinha o hábito de falar muito de si mesmo, mas apenas com amigos e esse não era o caso. Para ela, todos eram “marinheiros”, mas ele tinha um nome que ela havia dado. Não gostava de fazer isso, porém Berê não resistiu a uma intimidade verdadeira, baseada em suas fantasias, com aquele homem que a cada dia abria-se mais para ela.

    Certo dia, Berê perguntou-lhe se havia alguém deixado para trás, não alguém como ela – disse-lhe meio constrangida, sem saber o motivo ou sem perceber se havia um motivo para tal atitude de sua parte –, mas alguém especial, para quem ele escrevia cartas ou lembrava por uma razão qualquer. Ele limitou-se a olhá-la, estampando um meio sorriso.

    Enquanto ele estava “ancorado” naquele cais, ela era somente dele, sentia-se completamente dele. E era tanto assim, que acabou por recusar o dinheiro pelo seu serviço, pois já não era mais um serviço, era puro prazer. Berê nunca havia se sentido protegida, aninhada, consolada de sua vida mercenária. Viu que ali, naquele momento, não precisava fazer cálculos; passou a vida toda fazendo-os e errando-os. Se era assim, o que adiantava-lhe a matemática da vida, dessa vida forjada nas perambulações noturnas desde a adolescência?

    Na verdade, não tinha lembranças dessa etapa de sua vida, pois ouvia dizer que o adolescente ainda vive da inocência da infância, que ela não teve, pois já nasceu Berenice. Já nasceu mulher.

    A madrugada estava na metade quando ele resolveu responder à pergunta dela. Dois dias já tinham se passado e ela nem lembrava mais do assunto. Era melhor não saber nada, preferia viver suas fantasias com “pitadas” de realidade.

    “Sim”, disse ele, “eu tenho alguém”. Não era alguém totalmente seu, mas fazia parte de sua vida. Era uma amiga com quem partilhava seus pensamentos, suas aventuras e outras coisas mais. Berê olhava-o sempre na boca enquanto ele falava, pois o olhar dele nunca estava ali, parecia um navio em busca de um novo porto.

    Naquela noite, ele não falou apenas de si, mas de uma lembrança. De uma amiga. Estavam sempre juntos e seus amigos não entendiam sua amizade com uma mulher, porque acreditavam que, se não está envolvido sexualmente com ela, o melhor é sair de perto, mulheres não são confiáveis.

    Ele lembrou da amiga com tal carinho que Berê não resistiu em perguntar se era apenas uma amizade que ele recordava. Ele não soube responder de imediato. Após uma breve pausa, disse que nunca teve nada efetivo com ela. Talvez fosse amor, mas um amor sem toques ardentes e cobranças desmedidas. Talvez um beijo pudesse ter sido dado, mas ele não o deu, porque não queria que nada entre eles mudasse. O prazer residia em ela estar ali, ao seu lado. Não queria forçar nada que atrapalhasse aquela amizade que transcendia o normal. Era bom poder confiar em alguém e isso ele encontrava ao lado dela.

    Berê parecia estar ouvindo seus próprios sentimentos em relação a ele, mas queria saber de uma forma mais direta se ele amou ou não a tal amiga. Já não era mais curiosidade, queria ir até o fundo da história! Arrependeu-se por ter iniciado o assunto, pois ouviu o que não queria, pagando pela sua indiscrição. Agora, queria saber tudo, achava que tinha direito e merecia isso.

    Na resposta, ouviu que ele não nutriu ou nutria o tipo de sentimento que Berê estava imaginando. O que ele amava eram os momentos compartilhados com sua amiga, que devia estar do outro lado do oceano, bem casada e – tomara Deus! – muito feliz.

    Ela sabia que aqueles momentos de aconchego findariam em menos de uma semana e estava aliviada por ele não ter alguém em especial, assim poderia imaginar que quando estavam juntos os pensamentos dele não buscavam outro cais, mas mantinham-se ancorados na cama dela, se era apenas isso que buscavam um do outro.

    Berê caminhava sob um luar que se banhava nas águas do mar, deixando para trás um navio de nome italiano, de que só guardava a lembrança de três anos passados, quando o único marinheiro a quem dera um nome falou de amenidades e do jeito próprio que cada um tem de amar…