Categoria: Pedaços do Caminho

  • 01 – Moinhos

    Os ventos eram tão fortes que ofuscavam a visão. Tão potentes que pareciam estar imbuídos de uma força destruidora. Como aqueles seres terríveis à sua frente. Todos estavam girando suas armas velozmente ao seu redor. Era até bonito de ver, se não fosse ele o alvo. Enormes. Ameaçadores. Ficou imóvel, a observá-los…

    Quando partiu da sua pequena cidade, a muitas léguas dali, só carregou consigo as expectativas e duas mudas de roupa, além do pão dormido no embornal. Cantil não tinha, muito menos espada. Havia de conseguir uma no caminho, como tudo mais.

    Ninguém lhe disse diretamente que era loucura ou que desistisse. Mas os olhares, escondendo intenções, reprovações, invejas, eram um sinal camuflado de que esperavam o seu fracasso. “Os gigantes do caminho o destruirão na primeira encruzilhada, como fizeram com todos os outros.”

    Assim, passo a passo, iniciou sua trajetória e acreditava, sem fagulha de dúvida, realizar os seus desejos. Se esses não eram tão nobres, também não fariam mal a ninguém. Mas estavam acima da vaidade e abaixo da necessidade que diziam nortear o nosso caráter. Sem preocupações sobre o pensamento dos inquisidores, comeu muita poeira errando de cidade em cidade. Alguns tentaram acompanhá-lo e ele demorou a perceber que eram apenas desvios. Preferiu seguir adiante sozinho. A conversa dos companheiros podia ser rica e alegre, e isso bastava-lhes. Não para ele.

    Olhava para o decorrido constantemente e sempre, definitivamente, concluía ter escolhido a melhor opção. Mesmo que a única peça de roupa estivesse coberta pela sujeira, impedindo os viajantes de perceberem sua imponência, seu valor. Pelo menos suas pernas estavam rígidas e sua mente havia sido purificada pelas reflexões forçadas, na noite escura e no dia escaldante. O caminho tinha sido muito bom, segundo a sua resignação, mas era chegado o momento das escolhas.

    Ali, cercado por aqueles gigantes descomunais, entendia que não tinha mais volta. Não havia escolhas a fazer. O seu andar apagou o recuo que podia ser feito há muito tempo. A pouca visibilidade causada pelos ventos intensos tornara-se momentaneamente sua inimiga. E o medo se apossou do seu ser. O movimento daquelas criaturas o deixava zonzo. De um lado e para o outro, ele se via envolto pela iminente destruição. Todos os caminhos estavam fortemente guardados. Não lhe dariam a trégua. E nem a fuga. No seu cambaleio, começou a brandir a sua espada. Acertava os vultos. Os movimentos. Era atingido e jogado ao chão. Tonto, se levantava e tornava a investir contra os seus algozes. Agora era tudo ou nada. Iria continuar o caminho. Saciar os seus desejos, mesmo que eles fossem egoístas, tolos. Nada iria impedi-lo. Nem um exército de gigantes.

    Estropiado, sentiu o vento se acalmar aos poucos. Os inimigos pareciam recuar. Lentamente. A visão mais nítida buscava por eles. Seus braços não giravam com tanta desenvoltura e aos poucos foram ficando imóveis. A ventania cessara e o terreno ficou claro. Somente uma brisa. Olhou toda a encruzilhada e não os viu mais. Haviam todos fugido. Todos. Podia seguir adiante, atrás dos seus maravilhosos e imorais desejos. Sem culpa, porque merecia deliciar-se com eles. E também porque à sua frente só restavam moinhos. Apenas moinhos.

  • 02 – O fã numero um

    (Este conto é em homenagem ao grande amigo Sebastião Messias)

    Os lençóis já não cobriam a cama e sim o picadeiro. Uma hora era o trapezista; num passe de mágica, o equilibrista. Não importava a função que desempenhava no circo de fundo de quintal, o que ele queria era estar no palco.

    Apesar de leonino assumido e gostar de estar na vitrine dos acontecimentos, não encontrava problemas em estar na platéia, na primeira fila, de preferência, aplaudindo como o mais entusiasta dos fãs. Era a empolgação em pessoa. O otimismo encarnado. A alegria presente.

    Sabia perfeitamente o momento de ser a escada para levar o próximo ao lugar em que, muitas vezes, queria estar. Adorava dividir as vitórias com o mundo inteiro. Incentivar os colegas a lutarem sempre pelos seus sonhos… e carregar os amigos no colo.

    O “não” era palavra inexistente. O “tudo posso” era a frase de sempre. As barreiras tornavam-se fumaça. Das dificuldades fazia piada. A incompreensão ele tratava com carinho. Ao pessimista ele mostrava as possibilidades de esperança. Parecia possuir as chaves de muitas portas e talvez por isso, banalizava as dificuldades e priorizava o que a vida tem de melhor, deixando de lado os assuntos que não engrandecem.

    Com certeza o seu corpo físico era frágil demais para comportar tanta grandeza. Tantos adjetivos. E agora, o vazio que toma conta dos que o amam, de alguma forma mística e concreta, será preenchido com a presença, não mais cênica mas eterna, do nosso Tião.

    Não incomodemos com nossos soluços, por mais difícil que seja, o seu ensaio para o próximo espetáculo. Palcos novos ele irá desbravar. Emoções galopantes ele irá despertar. Mas ele continuará nos assistindo e corrigindo um provável deslize na interpretação. Um posicionamento errado. Uma maquiagem mal elaborada…

    E quando você se sentir merecedor de aplausos, não se esqueça que ele sempre estará na primeira fila, com o mais belo dos sorrisos, torcendo por todos nós.

  • 03 – O jeito próprio de amar

    Na primeira vez que conversaram, ela quis saber de sua vida, gostava de manter um fingido conhecimento dos que levava para a cama. Nas primeiras vezes que se encontraram, ele falou apenas amenidades; tinha o hábito de falar muito de si mesmo, mas apenas com amigos e esse não era o caso. Para ela, todos eram “marinheiros”, mas ele tinha um nome que ela havia dado. Não gostava de fazer isso, porém Berê não resistiu a uma intimidade verdadeira, baseada em suas fantasias, com aquele homem que a cada dia abria-se mais para ela.

    Certo dia, Berê perguntou-lhe se havia alguém deixado para trás, não alguém como ela – disse-lhe meio constrangida, sem saber o motivo ou sem perceber se havia um motivo para tal atitude de sua parte –, mas alguém especial, para quem ele escrevia cartas ou lembrava por uma razão qualquer. Ele limitou-se a olhá-la, estampando um meio sorriso.

    Enquanto ele estava “ancorado” naquele cais, ela era somente dele, sentia-se completamente dele. E era tanto assim, que acabou por recusar o dinheiro pelo seu serviço, pois já não era mais um serviço, era puro prazer. Berê nunca havia se sentido protegida, aninhada, consolada de sua vida mercenária. Viu que ali, naquele momento, não precisava fazer cálculos; passou a vida toda fazendo-os e errando-os. Se era assim, o que adiantava-lhe a matemática da vida, dessa vida forjada nas perambulações noturnas desde a adolescência?

    Na verdade, não tinha lembranças dessa etapa de sua vida, pois ouvia dizer que o adolescente ainda vive da inocência da infância, que ela não teve, pois já nasceu Berenice. Já nasceu mulher.

    A madrugada estava na metade quando ele resolveu responder à pergunta dela. Dois dias já tinham se passado e ela nem lembrava mais do assunto. Era melhor não saber nada, preferia viver suas fantasias com “pitadas” de realidade.

    “Sim”, disse ele, “eu tenho alguém”. Não era alguém totalmente seu, mas fazia parte de sua vida. Era uma amiga com quem partilhava seus pensamentos, suas aventuras e outras coisas mais. Berê olhava-o sempre na boca enquanto ele falava, pois o olhar dele nunca estava ali, parecia um navio em busca de um novo porto.

    Naquela noite, ele não falou apenas de si, mas de uma lembrança. De uma amiga. Estavam sempre juntos e seus amigos não entendiam sua amizade com uma mulher, porque acreditavam que, se não está envolvido sexualmente com ela, o melhor é sair de perto, mulheres não são confiáveis.

    Ele lembrou da amiga com tal carinho que Berê não resistiu em perguntar se era apenas uma amizade que ele recordava. Ele não soube responder de imediato. Após uma breve pausa, disse que nunca teve nada efetivo com ela. Talvez fosse amor, mas um amor sem toques ardentes e cobranças desmedidas. Talvez um beijo pudesse ter sido dado, mas ele não o deu, porque não queria que nada entre eles mudasse. O prazer residia em ela estar ali, ao seu lado. Não queria forçar nada que atrapalhasse aquela amizade que transcendia o normal. Era bom poder confiar em alguém e isso ele encontrava ao lado dela.

    Berê parecia estar ouvindo seus próprios sentimentos em relação a ele, mas queria saber de uma forma mais direta se ele amou ou não a tal amiga. Já não era mais curiosidade, queria ir até o fundo da história! Arrependeu-se por ter iniciado o assunto, pois ouviu o que não queria, pagando pela sua indiscrição. Agora, queria saber tudo, achava que tinha direito e merecia isso.

    Na resposta, ouviu que ele não nutriu ou nutria o tipo de sentimento que Berê estava imaginando. O que ele amava eram os momentos compartilhados com sua amiga, que devia estar do outro lado do oceano, bem casada e – tomara Deus! – muito feliz.

    Ela sabia que aqueles momentos de aconchego findariam em menos de uma semana e estava aliviada por ele não ter alguém em especial, assim poderia imaginar que quando estavam juntos os pensamentos dele não buscavam outro cais, mas mantinham-se ancorados na cama dela, se era apenas isso que buscavam um do outro.

    Berê caminhava sob um luar que se banhava nas águas do mar, deixando para trás um navio de nome italiano, de que só guardava a lembrança de três anos passados, quando o único marinheiro a quem dera um nome falou de amenidades e do jeito próprio que cada um tem de amar…